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Capítulo 1
Progresso, pistolagem e cultura: A Imperatriz que recebeu o Faber

No meio há tanta fartura, misturava insensatez

Vi a terra úmida de sangue, do corpo de camponês

Fuzilados de tocaia, não foram dois e nem três

Companheiros que tombaram

Cenas que o tempo me fez.

Música “Canoa”, de Neném Bragança

O ano era 1986 e a ditadura militar (1964-1985) havia terminado. O Brasil vivia a redemocratização e, após a morte de Tancredo Neves, que tinha sido eleito por um colegiado, o vice maranhense, José Sarney, se tornou presidente. Diante dos novos tempos, Imperatriz, segundo maior município do Maranhão, vivia em um ritmo de crescimento. Com 220.095 habitantes, segundo os registros da Enciclopédia de Imperatriz (2003) organizada por Edmilson Sanches, o prefeito José de Ribamar Fiquene estava em seu segundo ano de mandato e a cidade passava por transformações estruturais importantes.

Um dos grandes marcos daquele ano foi a primeira visita oficial do presidente da República, José Sarney, à cidade. Na ocasião, foi anunciado o projeto da Ferrovia Norte-Sul, cujo trajeto passava por Imperatriz. No âmbito social e ambiental, o município passou a sediar uma unidade da então Fundação Nacional do Índio (Funai), com o objetivo de coordenar a assistência às tribos indígenas da região pré-amazônica, como os Guajajara, Gavião e Krikati.

A infraestrutura urbana avançava. A prefeitura implementava a regularização fundiária, entregando títulos definitivos que consolidaram a formação de bairros como a Vila Lobão. Ao mesmo tempo, o progresso avançava, com serviços básicos e tecnologia: a Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel) instalou uma central de Telex, modernizando a comunicação local, enquanto o bairro Bacuri recebia a expansão da rede de abastecimento de água. Nas ruas, o asfalto começava a mudar a face dos bairros Nova Imperatriz e Jussara. Nesse período houve a inauguração do “Mercadão o Povo Merece”, localizado na Beira Rio, onde se vendia carne e peixe de forma tabelada, a partir de um acordo estabelecido entre o mercado e os associados da Colônia de Pescadores.

Na década de 1980, Imperatriz continuava tendo o seu cotidiano atravessado por uma forma de violência que lhe rendeu a fama de “terra sem lei”. Esse cenário era alimentado principalmente pela “pistolagem”, embates

Avenida Getúlio Vargas no início de 1980 - Arquivo de internet

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entre latifundiários, camponeses e indígenas. Os anos 1960 e 1970 já haviam sido marcados pelos intensos conflitos entre militares e os denominados subversivos, durante a Guerrilha do Araguaia (1967 a 1974), na região do Bico do Papagaio, no extremo norte do Tocantins. Em um texto publicado no jornal local O Progresso, do dia 14 de setembro de 1986, Margarida Genevois escreveu: “Há alguns anos começaram choques de interesses entre migrantes antigos e recém-chegados e instalou-se na cidade um ambiente de guerra que atraiu ​‘foragidos’ e assassinos. Matava-se à toa. E ainda mata-se. É também dessa época a interiorização para o Oeste em direção a Marabá e da matança dos índios gaviões pela posse das terras cuja tribo foi totalmente dizimada pelos grileiros numa emboscada”. A posição geográfica da cidade a tornava um ponto de convergência para migrantes, aventureiros e grandes proprietários.

​​O ano de 1986 tornou-se então um marco trágico desse período, com o assassinato do padre Josimo Moraes Tavares, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Josimo foi executado a tiros, nas escadarias do prédio da Mitra Diocesana de Imperatriz, onde funcionava o escritório da CPT Araguaia-Tocantins, em pleno centro da cidade. Um crime que expôs para o Brasil a face cruel da disputa fundiária e a atuação de milícias rurais ou jagunços que operavam na região. Nessa época, a pistolagem era uma forma de poder usada para resolver disputas políticas, econômicas e de posse de terra, tornando corriqueiros os homicídios por encomenda, pouco noticiados nos jornais locais e nacionais.

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Notícias e reportagens sobre a violência de Imperatriz publicadas no Jornal O Progresso em 1986

Mesmo com o clima de insegurança que pairava sobre a região, a cultura efervescia em Imperatriz em 1986, demonstrando que a cidade pulsava para além da violência. Nesse cenário, coexistia a tradição da vaquejada entre os poderosos, latifundiários, fazendeiros e as ações das artes cênicas, música, escultura e pintura. Além disso, existia a banda do Sesi, que alegrava a cidade nos desfiles de 7 de Setembro e nos dobrados, com suas charangas, bem como a farra do Carnaval de rua. A arte reivindicava resistência e identidade, em um intenso movimento da juventude e da intelectualidade local. Naquele ano, o ambiente literário era estimulado por iniciativas como o Concurso Literário, promovido pelos estagiários da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e realizado na escola Rui Barbosa, que abria espaço para novos escritores.

O coração cultural da cidade batia forte no Paço da Cultura José Sarney – local que hoje abriga a Academia Imperatrizense de Letras - , na Praça da Cultura e Praça Tiradentes. O circuito era palco de espetáculos, como o show “ID” do cantor e compositor Henrique Guimarães e sediava a segunda edição do Festival de Poesia, Crônica e Conto, promovido pelo Grupo de Literatos de Imperatriz (Gruli), com o apoio da Associação Artística de Imperatriz (Assarti). Este festival era um dos momentos mais aguardados pelos artistas literários, que competiam pelo “Troféu Macunaíma”. Na televisão, o sentimento de pertencimento era reforçado pelo retorno do programa “Minha Terra, Minha Gente”, na TV Educativa de Imperatriz. A produção percorria diferentes pontos da cidade, mesclando o talento dos convidados com as paisagens urbanas, fazendo jus ao nome.

Além disso, a Feira de Artes de Imperatriz, organizada pela Assarti, acontecia na Praça da Cultura e chegava à sua quinta edição, transformando-se em um evento de três dias que integrava poesia, música, teatro, arte e artesanato, amplificando a voz e visibilidade de talentos que muitas vezes, permaneciam no anonimato. A classe artística que se organizava por meio da Assarti, exercia um papel importante ao reivindicar, junto ao governo do Estado, melhorias para o Teatro Ferreira Gullar. Carinhosamente chamado “Ferreirinha”, esse espaço já era o símbolo das aspirações culturais de uma população que, entre os desafios da época, não abria mão de expressar sua força artística.

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Notícias sobre eventos culturais em Imperatriz em 1986 nos jornais O Progresso e no Jornal de Negócios. Abnaldo Ramos na Feira de Artes e o primeiro trio elétrico de Imperatriz - Bum-bum de Bebê (Arquivo pessoal de Luis Carlos Dias)

A luta pela cultura e reforma do teatro continuou por muito tempo. No dia 28 de agosto de 1987, o professor José Geraldo da Costa, que havia sido diretor de centro do campus da UFMA em Imperatriz, escreveu um texto para o jornal O Progresso, que dizia: “(...) Como os personagens são e dão seus testemunhos, sua casa - o teatro - é um documento. É história. Neste exato sentido é que é memória. (...) Tudo isso companheiro das artes -  da cena, do som, das formas e das letras tudo isso é vivenciado, tudo isso fica, se incorpora também nos lugares requentados. Dão sopro e alma a casa. Ao teatro. A casa das cenas e dos poemas. Que assim também se faz a casa das lutas e labutas. Se faz o reduto.”

Em meio a esse agitado cenário social, político e cultural, surgiu a ideia revolucionária de organizar um festival na beira do Rio Tocantins, no Balneário Estância do Recreio. Seriam três dias de competição, com intérpretes de toda a região defendendo músicas autorais e abrilhantados com shows de nomes nacionais. Mas, a princípio, tudo parecia um sonho impossível de realizar.  

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