top of page

Imperatriz é uma cidade que sempre atraiu pessoas de todos os lugares. No meio desse fluxo constante de chegadas, desembarcou na cidade, em 1975, o jovem Fernando Farias de Timóteo. Nascido em Caxias, em 20 de março de 1955, ele trazia na bagagem a disposição para encontrar trabalho em uma região que não parava de crescer. “Lá em São Paulo eu participei de um festival organizado pelo Banco do Brasil, eu com meus 17 anos de idade, tirei segundo lugar”, relata Timóteo, como é mais conhecido.

Logo após a sua chegada, Timóteo montou a primeira escola de samba de Imperatriz Unidos do Paraíba,  com a ajuda do Armazém Paraíba, onde trabalhava, em 1976. Ele já havia tido experiências nesse sentido no município de Artur Alvim, em São Paulo, e quando morou em Santa Inês, no Maranhão. “Ribamar Alves, que foi deputado federal dois mandatos, fez uma escola de samba, eu
fiz outra. Eu fiz a escola ‘Porta aberta’ – em homenagem à música de Vicente Celestino -  e ele fez o ‘Sunguelo’, que a bandeira é uma sunga de uma mulher. Então nós fizemos e lá vim para Imperatriz”.

Mesmo trabalhando no Armazém Paraíba, Timóteo tinha outros planos. “Sempre a intenção de fazer eventos culturais, Carnaval. Então surgiu a ideia de fazer esse festival, por que não? Me lembrei daquela Liverpool dos Beatles… Poxa, um lugar tão lindo desse aqui, por que não aproveitar? Aí deu certinho.” Estava nascendo a semente do Festival Aberto do Balneário Estância do Recreio (Faber).

No início, muitos acharam a ideia de Timóteo muito ambiciosa. “[O ex-vereador] Carlos Lima era dono do Balneário e presidente, no começo não aceitava não. Aí eu já fiquei revoltado. Chamei várias pessoas da diretoria para uma reunião, paguei comida, bebida, janta… bora! A ideia é essa”. O jeito foi aguardar que o baiano Edeomedes Aguiar, mais sensível a esses planos, assumisse a presidência do Balneário. “Ô Aguiar, é assim, assim. Ele disse: ‘Fechado o negócio, topo’. Quando ele topou, aí começamos a trabalhar”. Carlos Lima acabou aceitando também encampar o festival. “Quando ele vestiu a camisa, ele falou: ‘Tô sentindo fé’. E o Carlos Lima era poderoso mesmo, é o cara que tinha condições, era valente para isso”, comenta Timóteo.

O nome Faber foi criado pelo cantor e compositor Henrique Guimarães. “Foi a participação que eu dei, né? Aí depois insistiram que eu participasse. Eu só queria colaborar. Aí depois me convenceram, e eu fui participar do primeiro Faber, é só desse que eu participei”, confirmou Henrique, em entrevista para esta reportagem.

18faber.jpg
pg 4_edited.jpg

O cantor e compositor Henrique Guimarães; Imagem no jornal O Progresso de Edeomedes Aguiar e uma das reuniões da diretoria do Balneário Estância do Recreio

No entanto, para tirar um projeto dessa magnitude do papel, a vontade esbarrava na falta de recursos financeiros. A solução veio de um amigo próximo de Timóteo, que mantinha bom trânsito com grandes políticos da época: “Quando eu tive a ideia de fazer o Faber, eu tinha o meu amigo Gilberto Castro, irmão do escritor Adalberto Franklin, que disse: ‘Tá chegando o Américo de Souza em Imperatriz. Vamos lá buscar ele no aeroporto. Ele pode te ajudar no Faber’”. 

Em meados dos anos 1980, Américo de Souza, que tinha sido deputado estadual, veio para Imperatriz, pois estava iniciando a candidatura a senador para disputar contra Epitácio Cafeteira Afonso Pereira, que fora prefeito de São Luís e era governador do Maranhão.  “Américo de Souza era acionista da Varig, no Rio Grande do Sul. Maranhense, mas já morava no Rio Grande do Sul. E ele veio para isso, com dinheiro... Chamei o Carlos Lima, Aguiar, todo mundo que era da diretoria, fomos lá no aeroporto buscar ele. Quando nós chegamos lá, fomos acompanhar ele no hotel Poseidon”. 

19faber_edited.jpg

Campanha do candidato no jornal O Progresso

Era notável a movimentação dos cabos eleitorais que, após reuniões com Américo,  recebiam dinheiro. “Todo mundo saía alegre… E quando chegou a nossa vez, eu desenhei na mente dele o que seria um Faber… Festival Aberto Balneário Estância do Recreio. Nas margens do Tocantins, onde tem a praia, todo mundo vai ficar acampado. Essa era a ideia. Aí eu mostrei um cartaz para ele mostrando mais ou menos com os desenhos de barraca, todas essas coisas, ele se encantou”.

​Américo perguntou: “E o que é que vocês querem de mim?”. Timóteo não titubeou e pediu que fosse custeado o show do cantor e compositor Zé Geraldo, que  custava 25 mil cruzeiros novos. “Ele disse: ‘Elba Ramalho não serve?’ Eu disse: ‘Olha, para nós Elba Ramalho seria o triplo

melhor do que Zé Geraldo em termos de público, né? Aí ele chamou o secretário dele: ‘Liga para Elba Ramalho’”, detalha Timóteo sobre os bastidores da conversa.

Elba Ramalho naquele ano, estava fazendo participações internacionais, como no Festival de Jazz de Montreaux, na Suíça, além de estar em cartaz com um show no Canecão no Rio de Janeiro, e com data marcada no programa televisivo de Hebe Camargo. Então, sem agenda, voltaram com a ideia de Zé Geraldo. Mas o patrocínio inicial estava concretizado: “E com isso, ele tava conversando, metia a mão na bolsa dele, pegava um amendoim, comia, e quando pensei que não, ele trouxe foi o dinheiro: dois maços de 10 mil cruzeiros novos na época. Metia a mão, tirou mais um maço de 5 mil e jogou em cima de mim. Eu joguei em cima do Aguiar, Aguiar jogou em cima do Carlos Lima”, relata Timóteo. 

Satisfeitos e surpresos, pegaram o cartaz, embrulharam e saíram para comemorar no posto de lavagem de carros que existia na esquina das ruas Dorgival Pinheiro com a Souza Lima, local em que foram aprimoradas as ideias para o festival. Ainda em meio à euforia, chegou o empresário Edvar Frota, dono da cervejaria Brahma, que, em disputa comercial com a Antarctica, eram as duas que mais vendiam cerveja na cidade e sempre patrocinavam eventos, como explica Timóteo. “E o Edvar chegou para mim, e disse: ‘O que vocês estão comemorando?’ Eu disse: ‘Rapaz’... aí contei a história para ele... Ele disse: ‘O que que é que tá faltando?’ Pagar a [cantora e compositora] Diana Pequeno’. ‘Quanto é o cachê da Diana Pequeno?’ 15 mil cruzeiros novos. Ele disse: ‘Eu pago”’. 

Ribamar Fiquene, o prefeito da cidade na época, também era amigo de Timóteo, que pediu uma audiência e comentou: “Se o senhor me ajudar, nós vamos fazer, porque o [cantor e compositor] Raimundo Sodré e Zé Geraldo já estão pagos. Só falta o senhor me dar a banda. ‘Quanto é a banda?’ ‘4 mil cruzeiros novos’. ‘Eu pago’. Foi a Prefeitura que me deu, desse jeito. Então nós fizemos um festival praticamente de graça, mas, mesmo assim, tivemos despesa”, explica Timóteo. 

E foi por meio dessa articulação que o Faber teve a oportunidade de projetar a imagem da cidade. Esse apoio financeiro foi o combustível que faltava para transformar o planejamento em realidade, permitindo que a estrutura inicial fosse montada para receber artistas e público em um cenário paradisíaco, à beira do Rio Tocantins.

bottom of page