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Capítulo 3
I Faber - Música, amor e alegria nas barrancas do Tocantins

A primeira menção ao Festival Aberto Estância do Recreio (Faber) surgiu em uma nota publicada no dia 2 de outubro de 1986, no jornal O Progresso. A coluna Gente & Negócios, de M. Neto, informava que interessados poderiam anunciar em painéis publicitários que estariam expostos no Balneário Estância do Recreio. A nota revelava a data do evento,  marcado para os dias 17, 18 e 19 de outubro daquele ano. Mas a promoção do Faber já acontecia desde algumas semanas antes, sob o comando próprio Timóteo: “Quem nos deu o cartaz foi o Sérgio Godinho, do Jornal O Progresso, porque não existia gráfica para fazer cartaz não, naquele tempo. ‘Timóteo, tô dando para você de presente’. E me deu os cartazes do tamanho da folha do jornal’. 

Timóteo e sua equipe saíram pelas ruas centrais divulgando os cartazes utilizando como veículo uma Brasília velha que ele tinha cortado para brincar o Carnaval. “Eu enchia de gente para beber cachaça e pregar cartaz. Foi o que nós fizemos. Dia 6 de setembro, pichamos a Getúlio Vargas com o Faber. De madrugada e com medo da polícia vir atrapalhar. Então, nós fizemos um trabalho de divulgação mais lindo que existiu. Naquele tempo não tinha comunicação, era só a Rádio Imperatriz, a programação ainda era de lá”, conta, referindo-se à primeira emissora profissional da cidade, fundada em 1978.

​A Comissão Organizadora do I Faber foi presidida por Carlos Lima de Almeida e teve como coordenadores Timóteo, o odontólogo Rossivelt Dias, o advogado Edmilson Franco, o cantor e compositor Neném Bragança e o jornalista Gilmário Café. O Faber era inédito para a cidade pela sua proporção. Até mesmo para um empresário acostumado a patrocinar eventos, como Timóteo, as dúvidas eram inevitáveis: “Grande demais. O Edvan Frota, que era o dono da Brahma, achou grande. ‘Rapaz, como é que pode? Tu achas que vou dar conta de vender cerveja lá?’ Eu disse: ‘Rapaz, bota cerveja dentro do freezer, abre uma torneira lá e vende como chopp’. ‘Não pode não, Timóteo, é diferente’. Eu não sabia, né como é que era. Mas deu certo, ele comprou muita cerveja do Ceará, estoque grande, foi um negócio muito bom”, garante Timóteo.

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Cartaz promocional do I Faber publicado em 05/10/1986

​No dia 5 de outubro de 1986 foi divulgado o cartaz do 1º Faber no Jornal O Progresso, anunciando que o festival iria promover “música, amor e alegria nas barrancas do Tocantins” e chamando os interessados a inscrever as suas composições autorais. O material anunciava que o vencedor receberia o prêmio “em espécie”, de CR$ 10 mil, enquanto o segundo e o terceiro lugar teriam direito, respectivamente, a CR$ 5 mil e CR$ 3 mil. Além disso, havia o prêmio para melhor intérprete, CR$ 2 mil.

​Nos dias que antecederam o festival foram publicadas várias notas pequenas. Tratavam sobre o trabalho acelerado da montagem do palco e os preparativos no balneário para receber as pessoas que iriam prestigiar os concorrentes do festival de música autoral e, também, grandes nomes da música nacional. Também anunciavam a venda dos espaços publicitários do evento. Timóteo contou como foi adquirido o palco. “Foi o mesmo que fizeram para o Sarney vir aqui na Praça Tiradentes como presidente da República, de ferro, e estava lá na BR, parado. E nós descobrimos esse palco. Que que nós fizemos? Carlos Lima foi lá, negociou duas ações do

Balneário em troca do aluguel e nós compramos só os parafusos.”

Eram muitos os detalhes logísticos para o funcionamento de um festival. Timóteo recorda como conseguiu as passagens de avião para os cantores que viriam se apresentar, novamente com o apoio do pré-candidato ao Senado, Américo Souza. “Aí eu liguei para ele: “Meu senador, estamos precisando de 11 passagens. A Diana Pequeno exigiu pelo litoral, ela queria conhecer. E aí consegui com o Souza as 11 passagens de ida e de volta”.

Imperatriz era uma cidade em evolução, mas continuava com ares de município do interior. “Zé Geraldo disse: ‘Timóteo, Imperatriz existe? Maranhão existe?’ Ele só conhecia Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. O restante é mato. Pra eles era tudo mato aqui. Para eles, aqui não existia.”

Na edição do dia 17 de outubro, o I Faber estampou a primeira página do O Progresso, destacando a chegada dos artistas ao aeroporto de Imperatriz, vindos do Rio de Janeiro e São Paulo: “Raimundo Sodré; Durval Souto e Zé Geraldo, acompanhado dos músicos Armando Santos Rosa (guitarrista); João Paulo (baterista) e Fernandinho (baixo), além do empresário Paquito”.

 

Também chegaram no mesmo dia alguns concorrentes do festival de música autoral. Xavier e Armando Santos, ambos de Marabá (PA), defenderiam, respectivamente, as canções Peixe-menina e Menina moça e Raymei, de Paragominas (PA), com a música Barbantes. O cantor e compositor Carlinhos Veloz, que na época morava em Recife (PE), também aportava para interpretar Nordeste inocente e Juízo final. Batista Filho, de Anápolis (GO), veio cantar Beijo Zepellin e Orlando Maranhão, de Codó (MA), Cheiro da terra.

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Manchetes do dia do jornal O Progresso do dia 17 de outubro de 1986

Um dos participantes, o cantor e compositor Erasmo Dibell, relata algumas estratégias de divulgação. “Eu me lembro que além de casa cheia, com muitas barracas de camping, nós tínhamos apoio de algumas pessoas muito especiais, como é o caso da doutora Ruth Noleto, que patrocinava panfletos com a letra das músicas da gente”. Transitando em meio ao público, Erasmo distribuía esse material para as pessoas acompanharem, cantarem junto as  suas canções autorais que seriam defendidas. “Um pedaço grande desse público desde quinta-feira, dia de ensaio, já estavam por ali curiando, e naturalmente, já fazendo sua seleção de preferidas, vamos dizer assim”, conta Erasmo.

No dia 17, a expectativa pelo Faber estava alta. Roosevelt Dias publicou um texto inspirado pelos títulos das músicas classificadas para a primeira edição. Willian Marinho, autor de uma coluna chamada Acontecendo - Sociedade em foco, no jornal O Progresso, que noticiava sobre a alta sociedade imperatrizense, também fez uma nota sobre o Faber, anunciando o início do festival. Na página 13 da edição nº 6.146, do dia 17 de outubro, foi publicada uma reportagem de uma página inteira, descrevendo a origem e a importância do evento: “A diretoria do balneário sentiu na oportunidade a chance de promover um acontecimento inédito em Imperatriz - três dias de festival - premiando a juventude tocantina, ávida por valores artísticos e dando lazer a seus sócios e a quantos ali forem para um final de semana prolongado”.

As três noites contaram com a apresentação de 24 músicas inéditas de compositores das regiões do Tocantins e Araguaia, sendo que 12 foram classificadas para a final. Além dos nomes nacionais, os integrantes da Banda Quatro, dos irmãos Chiquinho França e Luis Carlos Dias, deram suporte técnico e instrumental para as apresentações, além de apresentar um show particular com o “rei dos festivais da região”, o cantor Neném Bragança.

​Chiquinho França conta sobre o convite para participar da organização do festival: “Foi surpreendente e emocionante, porque eu já sabia o quanto era necessário e a importância de um festival para uma cidade como Imperatriz lá na época, né? Isso era 1986”. Chiquinho conta que já estava vivendo experiências “maravilhosas” na cidade, com a gravação em estúdio do cantor Carlinhos Santos, na rua Coronel Manuel Bandeira. “A Banda Quatro foi convocada para ser a banda para acompanhar o primeiro Faber e a gente tinha acabado de comprar um equipamento

Texto de Roosevelt Dias

novo, moderno, de P.A. Então, por isso fomos escolhidos. Foi o primeiro festival em que eu trabalhei como arranjador.”

As atrações nacionais da primeira edição do festival foram o mineiro Zé Geraldo e os baianos Raimundo Sodré e Diana Pequeno, responsáveis pelos shows de encerramento de cada noite do Faber. Embalado por uma carreira de sucessos como Cidadão (Lúcio Barbosa), o cantor e compositor Zé Geraldo estava lançando, em 1986, o seu sexto álbum de estúdio, intitulado No arco da porta de um dia. Este disco, lançado pela gravadora Veleiro/CBS, foi o último trabalho do artista com uma grande gravadora, marcando o início da sua fase de lançamentos independentes a partir do ano seguinte.

Já Raimundo Sodré havia se tornado conhecido nacionalmente após conquistar o terceiro lugar no Festival da Nova MPB 80, defendendo a canção A massa, composta em parceria com Jorge Portugal. Seu primeiro álbum, A massa, de 1980, vendeu mais de cem mil cópias, o que lhe rendeu um disco de ouro. Diana Pequeno, por sua vez, já tinha participado do Festival MPB da Globo em 1981 e 1986, e lançado, em 1985, o seu sexto disco: O mistério das estrelas, pela RCA Victor. Mas seu maior sucesso era a versão brasileira da canção Blowin’in’the wind, de Bob Dylan.

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Na sequencia: Capa do LP da Banda Quatro de 1984 (arquivo pessoal de Luis Carlos Dias); Recortes do jornal O Progresso noticiando as atrações do I Faber

Timóteo relembra de detalhes interessantes envolvendo os artistas nacionais que participaram do Faber. “Diana Pequeno foi um show maravilhoso, ela era um show, ela é maravilhosa, ela bem, tava no auge, né?”. Já Raimundo Sodré se envolveu em um momento cômico, como também relata Timóteo. O cantor estava distraído, debaixo de um pé de manga que ficava paralelo ao palco, fumando um “charuto” de maconha com Neném Bragança bem na hora do espetáculo. “E eu anunciando: ‘E agora, com vocês, Raimundo Sodré”. E nada, cadê o Sodré? E o povo lá atrás: ‘Timóteo eu não tô achando ele não’”. Os artistas nacionais faziam os seus shows enquanto os membros do júri apuravam os classificados daquela noite. “E daqui a pouco com vocês, Raimundo Sodré!’. E lá veio ele vindo correndo lá para cá. Quando subiu no palco, ele jogou o cigarro para mim: ‘Ô meu irmão, você quer matar nós, meu irmão? Tá todo mundo doido’”, conta Timóteo, entre risadas.

Nos dias 18 e 19, o festival surpreendeu pela organização e pela qualidade das músicas e apresentações de todos os cantores. Willian Marinho ressaltou o estilo inconfundível de Zé Geraldo, que se apresentou na primeira noite: “Música de alerta e contestação das injustiças”. No dia 21 de outubro, O Progresso destacou em sua primeira página que o cantor e compositor Zeca Tocantins havia vencido o festival, com a música Depois do tiroteio, classificada como “um chorinho que enaltece Imperatriz em contraste com a propalada violência da região”.

Imperatriz que canta, também encanta, como encantou Zé Geraldo, que veio para se apresentar no 1º dia e ficou todo o festival, impressionado com as músicas defendidas no evento, mas também com outro “produto” que curtiu na parceria de Neném Bragança, como conta Timóteo. No dia que o cantor aterrissou na cidade, enquanto almoçavam no restaurante Tutubarão, Zé chamou o produtor no canto. “Timóteo, tem um produto aí, cadê?’. Eu disse: ‘Tem um bocado de mulher, menina aí, solteira’. ‘Não, meu irmão, tu é muito é doido, não é isso que eu quero não.’”

Timóteo foi pedir socorro para Carlos Lima.  “Carlos, pelo amor de Deus, me socorre, que eu não sei o linguajar desse pessoal, o que é que eles querem?’. Aí ele disse: ‘Timóteo ele quer é o baseado’. Eu disse: ‘Chama o Neném Bragança, pelo amor de Deus!’. Chamamos, Neném pegou ele, levou para o hotel Poseidon e ficaram amigados três dias”. O planejado era que Zé Geraldo se apresentasse na sexta-feira e fosse embora no sábado. “Mas ele disse: ‘Timóteo, troca minha passagem. Só vou embora na segunda-feira, não vou sair mais daqui não’. Desse jeito. Ele tinha show para fazer, mas cancelou para ficar aqui. Aqui ele ficou à vontade. Foi assistindo no sábado, assistiu a Diana Pequeno, o Raimundo Sodré e ficaram lá. Então, é, essa é a história do festival, do Faber. Foram três dias de festa.”

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Zeca Tocantins recebe o troféu de 1º lugar no I Faber (arquivo pessoal de Timóteo); Recorte do jornal O Progresso do dia 21 de outubro de 1986

Na página 2 da edição de O Progresso publicada no dia seguinte ao final do Faber (dia 21), o título comentava: “Sem perdedores”. O festival trouxe grandes nomes e canções e os 12 jurados que tiveram a difícil missão de dar notas, não conseguiram evitar o descontentamento de alguns grupos que tinham os seus favoritos. Erasmo Dibell venceu o segundo lugar, com a canção Aletia, enquanto o terceiro ficou com Carlinhos Veloz e a sua canção O dia do juízo final. O prêmio de melhor intérprete foi entregue a Dimas, que cantou Acalanto. Houve ainda, a menção à aclamação do público para Henrique Guimarães e Olyria, com Jangadeiro

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