Faber: batuque de almas,
melodias de encontros
As histórias e o legado do I Festival Aberto do Balneário Estância do Recreio

Katherine Martins
Janeiro de 2026

Capítulo 4
Ecos de um evento marcante
As músicas de festival são diferentes. Não nascem apenas para entreter, mas para desafiar e marcar época. Elas possuem uma estrutura que precisa capturar a atenção imediata dos jurados e a alma da plateia. São canções que carregam letras mais densas, arranjos elaborados e, muitas vezes, um grito de resistência ou uma crônica social que um show comercial dificilmente abraçaria. Zeca Tocantins, que ganhou o 1º lugar com uma música que retratava a Imperatriz daquela época, Depois do Tiroteio explica: “A música precisa ser mais social, é como se tivesse dando um tapa em alguém. Ela quer dizer uma coisa, quer dar um murro. O gênero pode ser qualquer um. Mas a proposta da letra tem que ser certeira, né, cara? O intérprete tem que ter um diferencial de interpretar”, argumenta Zeca.
Henrique Guimarães também menciona essa diferença de músicas de festival para outras mais comerciais: “Eu, como compositor, e o que eu vejo dos outros compositores, uma música de festival é aquela que manda um recado muito marcante e breve. Assim, para que se marque naquela hora, porque o importante do festival é a hora que está ali, entendeu? Se você botar uma música romântica não vai… o pessoal vai gostar, mas o júri é que vota, é muito crítico nessa questão”. Na análise de Henrique, existe uma diferença de músicas compostas para festivais e as destinadas a fazer sucesso. “Antigamente quando eram aqueles festivais antigos de Chico Buarque e Caetano Veloso, as músicas de festival viraram hinos no Brasil todo, né? Mas aqui hoje, com exceção daquela Ave de arribação, Imperador Tocantins, que tomou outros voos, aquela Filhos da Precisão, do Erasmo, entendeu? Então tem músicas que marcam assim depois do festival, mas eu acho que na hora é mais é o julgamento do júri”.




Henrique Guimarães, Timóteo, Zeca Tocantins e Erasmo Dibell - Arquivos de internet
Para Erasmo Dibell, os festivais podem determinar um certo norte para um compositor que, afinal, está sendo premiado, mas isso não é uma regra. “E me lembro que esse primeiro festival foi maravilhoso, agraciando o querido Zeca Tocantins com Depois do Tiroteio, que é uma música maravilhosa, conta muito da realidade da nossa cidade nos anos 80, né?” Erasmo completa o seu raciocínio apontando a diferença do festival para um espetáculo individual de um artista. “O show você tá ali, com 3, 4, 5, 10 15, 20 músicas, mostrando esse repertório. E ali, no festival, você tem que ter que dar um tiro certeiro, vamos dizer assim, né? Escolher o que tiver de melhor para melhor performance, porque é um momento único. É a passagem de uma música em que você tem que marcar com presença de palco, boa interpretação, com uma letra que tenha conteúdo. A gente é de uma geração em que a poesia estava automaticamente atrelada à coisa da melodia musical. Muito diferente do que se compõe e do que em geral o público consome hoje em dia”, compara Erasmo Dibell.
O criador do festival, Timóteo, comenta que a ideia do Faber era o que o mundo já entendia, lá fora, mas, em Imperatriz, ninguém sabia: “Liberdade. Mostrar liberdade para as pessoas. Era essa minha intenção. Mesmo que fosse uma liberdade temporária. Tu é doido, era uma coisa bonita demais, era uma coisa… Eu tenho fotografia, eu 6 horas da manhã conversando com a galera, lá”, comenta.
O jornalista e historiador Adalberto Franklin, que faleceu em 2017, publicou um artigo sobre a primeira edição do festival, ainda em 1986. Apontou que Imperatriz despontava como um polo de cultura, podendo até superar o estigma da violência que a marcava. Mencionou também alguns erros na organização, “uma gafe aqui, outra acolá, que merecem um reparo para uma próxima promoção deste gênero”.
Mas, um ponto importante que o Faber herdou


Adalberto Franklin e seu relato sobre o I Faber para o Jornal O Progresso
dos grandes festivais brasileiros e que Adalberto destacou foi que “das 24 músicas que concorreram, o que se pode dizer é que foi de um nível surpreendente (...) e que se pode constatar que as músicas sempre traziam uma mensagem sólida, a grande maioria, sem subterfúgios apelativos.” Sobre a pequena diferença nas notas, Adalberto disse que “os premiados apenas tiveram sorte”, não desmerecendo, mas destacando a qualidade dos concorrentes. E mesmo “depois do tiroteio, salvaram-se todos, sem perdedores, o grande vencedor foi a cultura imperatrizense”, em referência ao título da canção vencedora da primeira edição.
O primeiro Faber foi tão significativo que carrega até hoje um símbolo de sucesso. Timóteo fala em números: “Eu exigi que o Carlos Lima conseguisse para nós uma catraca pela Transporte Coletivo Imperial (TCI), do senhor Geraldo Hipólito. Catraca para nós conferirmos quantas pessoas tinham: 10 mil pessoas batido todas as noites.” Henrique Guimarães confirma a impressão que ficou de uma grande plateia: “O festival foi maravilhoso. Eu nunca vi tanta gente, um público tão grande para a gente que estava começando a nossa carreira artística. Todos nós aqui da Imperatriz e de fora, tínhamos 24 anos, 26 anos, a média de idade, para cantar para 10 mil pessoas. Era uma coisa fantástica para a gente, né?”
Um festival de música é diferente de um espetáculo, pois enquanto o show é o momento de consagração de um artista já estabelecido, este tipo de evento é o terreno fértil da descoberta e da competição criativa. Havia uma magia particular que envolvia as noites, como conta Zeca Tocantins: “Aquele festival foi ele querendo ou não, um divisor de águas. Imperatriz tem esse carma desgraçado aí, de violência. E aquele festival você amanhecia o dia, não tinha uma confusão. Então ali foi um diferencial mesmo, independente de qualquer coisa, né? Quem foi para lá foi com esse espírito, de brincar, ouvir vários artistas bons. Aquele ambiente ali do Balneário Estância do Recreio era fantástico, maravilhoso.”
Para os artistas que subiam ao palco, o festival significava algo além de uma competição. Era o rito de passagem que transformava o talento anônimo em reconhecimento público. Em uma época em que as oportunidades de gravação e divulgação eram escassas, vencer ou mesmo participar do evento significava a abertura de portas na carreira. Como é o caso do Henrique Guimarães: “Mas ele serviu muito, o Faber. Eu, por exemplo, gravei uma música em São Paulo, porque eu conheci o Raimundo Sodré da ‘Massa’, ele me levou para lá. Então é esse contato. Às vezes a gente não ganha o festival, mas ganha outras coisas por fora. Aí eu gravei Imbiral, que é uma música bem conhecida, aqui e lá em São Paulo, através do Raimundo Sodré”.



Luis Carlos Dias, Nando Cruz e Chiquinho França - Arquivos de internet
O festival funcionava como uma vitrine, oferecendo aos músicos a chance de serem ouvidos por produtores, críticos e, principalmente, por uma plateia ávida por novidades. Chiquinho França, que participou na organização do som no I Faber, diz que procurou apresentar uma estrutura de qualidade, dos arranjos, à sonoridade. “A forma com que tratamos todos os concorrentes sem puxar saco para nenhum, tratando todos eles bem... Todos ficaram muito satisfeitos com os arranjos, a forma como a gente conduziu a banda em palco”. Os frutos foram tão bons que, ao retornar para São Luís, Chiquinho assumiu o Festival de Música Carnavalesca do Maranhão, produzido pela TV Mirante. “Foram 14 edições e eu produzi e assinei a produção dos arranjos de todas”, orgulha-se.
Para muitos, o I Faber representou o primeiro degrau para profissionalização, permitindo que as composições locais saíssem das rodas de amigos e ganhassem as ondas das rádios, consolidando nomes que viriam a definir a identidade musical da cidade nas décadas seguintes. “O festival, em si, é uma ferramenta imprescindível para toda a comunidade, porque ali é a vitrine, é o espaço com estrutura profissional que se disponibiliza para os compositores, os intérpretes daquela região. No caso do Faber, intérpretes e compositores do Brasil inteiro”, avalia Erasmo Dibell, citando não só o seu exemplo, mas também os dos compositores Carlinhos Veloz, Luiz Carlos Dias e Nando Cruz. “Conhecemos também maravilhosos compositores e intérpretes de fora, que vieram concorrer e engrandecer esse festival, e, a partir dessa coisa do acontecimento do Faber, os olhos se voltaram para a gente com relação à qualidade do trabalho que se produzia aqui na cidade”.